
Quem vê de longe, pode até achar que é tudo a mesma coisa: bota de bico fino, fivela brilhando no cinto, camisa xadrez e, claro, o bom e velho chapéu na cabeça. Mas basta o primeiro acorde soar nos alto-falantes para o ouvido mais atento perceber que, embora usem o mesmo "traje de gala", o sertanejo brasileiro e o country americano correm por trilhas musicais, históricas e culturais completamente diferentes.
Seja nas comitivas que cortam o interior do Brasil ou nas picapes que rodam pelas estradas do Tennessee, a música do campo dita o ritmo. Mas afinal, onde esses dois mundos se cruzam e onde eles se separam de vez? O Portal Galera do Chapéu preparou um raio-X completo para você nunca mais confundir os dois estilos.
A primeira grande diferença está na certidão de nascimento de cada gênero.
O sertanejo nasceu caipira, no final da década de 1920. Cornélio Pires, um jornalista e escritor paulista, foi o responsável pelas primeiras gravações em 1929. A música sertaneja de raiz nasceu do cotidiano do homem do campo do Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, movida pela viola caipira e pelo violão. As letras narravam a vida na roça, a lida com o gado, a religiosidade e o folclore do interior.
Do outro lado do continente, nos anos 1920, o country nascia na região dos Montes Apalaches, no sul dos Estados Unidos. Ele surgiu da fusão da música folclórica trazida por imigrantes europeus (irlandeses e escoceses) com o blues e o gospel afro-americano. Instrumentos como o banjo, o violino (chamado por lá de fiddle) e o bandolim deram a identidade inicial ao som que começou a ser propagado por nomes como Jimmie Rodgers e The Carter Family.
Se no passado a diferença era óbvia (viola vs. banjo), a modernização dos dois estilos trouxe novas nuances:
A partir dos anos 1980 e 1990 (com as duplas românticas como Chitãozinho & Xororó e Zezé Di Camargo & Luciano), o sertanejo incorporou teclados, guitarras e arranjos pop. No "Sertanejo Universitário" e nas vertentes atuais (como o Agronejo), o acordeon (sanfona) é o rei indiscutível, dividindo espaço com batidas eletrônicas e o violão de nylon ou aço.
Embora o Nashville Sound atual flerte muito com o pop e o rock de arena (vide nomes como Luke Combs e Morgan Wallen), o country mantém uma assinatura acústica muito própria. O uso da steel guitar (aquela guitarra tocada horizontalmente que chora ao fundo das canções) e o casamento perfeito entre o fiddle (violino) e a guitarra de aço dão o tom característico que você não encontra no sertanejo.
Uma diferença crucial que qualquer um nota ao olhar para as paradas de sucesso está na estrutura das apresentações:
No Brasil, manda a dupla: Historicamente, o sertanejo é o gênero da harmonia vocal de duas vozes. A primeira e a segunda voz (uma fazendo a melodia principal e a outra criando a terça harmônica) são a espinha dorsal desde Tonico & Tinoco até Jorge & Mateus ou Maiara & Maraisa. Artistas solo existem e arrastam multidões (como Luan Santana e Gusttavo Lima), mas a tradição da dupla ainda é o pilar do gênero.
Nos EUA, o artista é solo: O country americano é majoritariamente um território de artistas individuais — Johnny Cash, Dolly Parton, George Strait, Carrie Underwood e Chris Stapleton. Bandas (como Zac Brown Band) e duos (como Dan + Shay) existem, mas a dinâmica da "primeira e segunda voz" clássica do sertanejo não é a regra por lá.
As temáticas das músicas traduzem as realidades de cada país.
O sertanejo passou da "saudade da roça" para o romantismo rasgado e, hoje, foca muito na "sofrência", nas festas, no consumo, na ostentação do estilo de vida agro moderno (as potentes caminhonetes) e no churrasco com os amigos.
O country americano também fala de amor e festa, mas preserva um forte tom de orgulho patriótico, canções voltadas para o trabalhador da classe operária (blue-collar), a vida em cidades pequenas, a herança familiar e a forte presença da religião cristã protestante em suas letras.
| Característica | Sertanejo ?? | Country ?? |
| Origem Geográfica | Interior de SP, MG, GO e MS | Sul dos EUA (Montes Apalaches, Texas, Tennessee) |
| Instrumento Símbolo | Viola Caipira / Acordeon (Sanfona) | Banjo / Steel Guitar / Fiddle (Violino) |
| Formato Clássico | Duplas (1ª e 2ª voz) | Artistas Solo |
| Capital Mundial | Goiânia (GO) / Barretos (SP) | Nashville (Tennessee) |
| Principais Temas | Romantismo, sofrência, festas e o agro moderno | Trabalho operário, patriotismo, família e vida no campo |
Nota da Redação: No fim do dia, seja no rodeio de Barretos ou no festival de CMA Fest em Nashville, o espírito é o mesmo. A música do campo evoluiu, cruzou fronteiras, ganhou as rádios urbanas e provou que a cultura da fivela e do chapéu é uma força imparável no mundo inteiro.
E você, parceiro e parceira da Galera do Chapéu, qual estilo bate mais forte no seu peito? O choro da sanfona ou o balanço da steel guitar?